Conto: “Esperando a Morte Chegar”

A doença que acometia Dolores era a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma condição cruel que minava aos poucos sua capacidade de se movimentar e de realizar as atividades mais simples do dia a dia. A ELA havia se instalado silenciosamente em seu corpo, transformando sua rotina e restringindo cada vez mais sua liberdade e autonomia. Os médicos não tinham uma previsão exata sobre quanto tempo de vida restava a Dolores, o que tornava cada dia uma incerteza angustiante. A sensação de estar à mercê da doença, sem controle sobre seu próprio destino, era um peso constante em seus ombros, uma sombra que pairava sobre sua existência e a fazia sentir como se estivesse presa em uma espera interminável pela morte.

A rotina solitária de Dolores se desenrolava entre as paredes de sua casa, onde realizava seu trabalho como engenheira de software em um ambiente virtual que se tornara sua única conexão com o mundo exterior. Os poucos amigos e colegas que ainda mantinha contato não podiam preencher o vazio deixado pela ausência de interações sociais e pela limitação imposta pela doença. Em um desses raros momentos de interação virtual, Dolores se viu envolvida em uma situação constrangedora em uma rede social. Ao tentar se conectar com um antigo colega de faculdade, acabou enviando uma mensagem privada para o perfil errado, expondo de forma inadvertida seus sentimentos de solidão e desespero. A pessoa que recebeu a mensagem, desconhecendo a situação de Dolores, respondeu de forma indelicada e insensível, causando-lhe mais dor e constrangimento.

O episódio serviu como um lembrete doloroso da fragilidade de suas conexões virtuais e da dificuldade de encontrar compreensão e empatia em um mundo cada vez mais distante e impessoal. Dolores se viu mais uma vez confrontada com a dura realidade de sua condição e com a sensação de isolamento e abandono que a acompanhava dia após dia. Enquanto o tempo seguia seu curso inexorável, Dolores continuava esperando a morte chegar silenciosamente em meio às sombras de sua casa, ansiando por um raio de luz que pudesse aquecer sua alma e trazer um lampejo de esperança em meio à escuridão que a envolvia.

A morte de Dolores foi um momento de transição doloroso, não apenas para ela, mas também para aqueles que a cercavam, mesmo que em sua maioria fossem poucos. Sua morte deixou um vazio na vida daqueles que a conheceram, ressaltando a fragilidade da existência e a importância de valorizar cada momento e cada conexão humana. A solidão que a acompanhou em vida se dissipou com sua partida, deixando para trás memórias de uma vida marcada por desafios e obstáculos intransponíveis, além do encerramento de um capítulo de dor e sofrimento, foi também de coragem e perseverança diante das adversidades que a vida lhe impôs.

A lembrança de Dolores perdurou na mente daqueles que a conheceram, recordando sua força interior e sua resiliência diante das provações que enfrentou. Sua morte foi o ponto final de uma história marcada por esperas intermináveis e pela aceitação resignada de um destino que, para ela, parecia estar traçado desde o início deixando para trás um legado de coragem e dignidade em face da adversidade.

Conto: “Portas Fechadas para o Amor”

Desde jovem, Jaqueline sempre foi independente e determinada. Sua beleza e sucesso profissional atraíam olhares e admiradores, mas por dentro ela guardava um segredo profundo e doloroso. Apesar de sua aparente segurança e autoconfiança, Jaqueline carregava consigo uma barreira invisível que a impedia de se entregar emocionalmente a alguém. Ao longo dos anos, Jaqueline tentou se envolver em relacionamentos, tanto com homens quanto com mulheres, mas sempre encontrava obstáculos que a impediam de se conectar verdadeiramente. Ela se via incapaz de abrir seu coração e compartilhar sua vulnerabilidade com outra pessoa, mesmo que desejasse ardentemente encontrar o amor e a companhia de alguém especial.

Sua maior decepção veio de um relacionamento passado, onde Jaqueline se permitiu amar e confiar plenamente em alguém, apenas para ser traída e magoada profundamente. A dor da traição deixou cicatrizes em seu coração, tornando-a ainda mais cautelosa e reservada em relação ao amor. Ela fechou suas portas para evitar mais sofrimento, construindo muralhas ao redor de sua alma para se proteger do mundo exterior. Jaqueline vivia em um estado de solidão autoimposta, mantendo os outros à distância e se recusando a se entregar à vulnerabilidade do amor. Ela se fechou em um casulo de segurança e auto preservação, negando a si mesma a chance de experimentar a alegria e a plenitude que o amor verdadeiro poderia oferecer.

A cada dia que passava, Jaqueline se via mais distante do amor e da felicidade que ele poderia trazer. Suas experiências passadas a assombravam, impedindo-a de confiar novamente e de abrir seu coração para a possibilidade de um novo começo. Ela se resignou à solidão, convencida de que o amor era um sonho inalcançável e as portas para ele permaneceriam eternamente fechadas.

A história de Jaqueline é um lembrete doloroso de como as cicatrizes emocionais podem moldar nossas vidas e nos afastar daquilo que mais desejamos. Seu conto nos mostra a importância de curar as feridas do passado, de perdoar a si mesmo e aos outros, e de estar aberto para o amor, mesmo que as portas pareçam estar fechadas.

Conto: “Deixe o Sol Entrar”

A solidão consumia Catarina e ela passava a maior parte do tempo em casa, rodeada por seus queridos eletrônicos: MacBook, iPhone, televisão e streaming. Eles eram seus melhores amigos, sua janela para o mundo exterior. Ela raramente saía de casa, evitando festas e eventos sociais. A solidão consumia Catarina. Ela passava a maior parte do tempo em casa, rodeada por seus queridos eletrônicos: MacBook, iPhone, televisão e streaming. Eles eram seus melhores amigos, sua janela para o mundo exterior. Ela raramente saía de casa, evitando festas e eventos sociais.

Apesar de seu estilo de vida recluso, Catarina mantinha um alto padrão de vida. Ela tinha recursos financeiros suficientes para sustentar-se, mas a origem dessa riqueza era um mistério para aqueles ao seu redor. Ela não compartilhava sua vida com ninguém, mantendo sua fortuna e seus segredos para si mesma. O segredo de Catarina era que ela havia recebido uma herança substancial de seus pais após o acidente. Seus pais, que eram pessoas bem-sucedidas, deixaram para ela uma quantia significativa de dinheiro, investimentos e propriedades. Esses recursos financeiros permitiam que ela mantivesse seu alto padrão de vida, mesmo sem trabalhar.

No entanto, o dinheiro não era suficiente para preencher o vazio emocional que Catarina sentia. Ela se refugiava em seus dispositivos eletrônicos, buscando conforto e companhia nas telas. Ela evitava compartilhar sua vida, seus segredos e sua riqueza com os outros, temendo que eles a julgassem ou a vissem apenas como uma pessoa privilegiada. A vida de Catarina era uma prisão invisível, uma gaiola de solidão que ela mesma criou. Mas dentro dela, havia uma chama de esperança. Um dia, ao assistir um filme inspirador em seu streaming, algo mudou dentro de Catarina. Ela percebeu que estava deixando o sol lá fora, enquanto se mantinha em uma escuridão autoimposta.

Decidida a mudar, Catarina começou a se abrir para o mundo exterior. Ela buscou terapia para lidar com seu trauma e encontrou um grupo de apoio para pessoas com deficiência. Ela descobriu que existiam pessoas que entendiam sua dor e que estavam dispostas a compartilhar suas vidas com ela. Catarina também usou sua riqueza para ajudar os outros. Ela começou a doar para instituições de caridade, apoiar projetos de inclusão e se envolver com causas que eram importantes para ela. Ela descobriu que a verdadeira riqueza não estava nas posses materiais, mas sim nas conexões humanas e na capacidade de fazer a diferença na vida dos outros.

À medida que Catarina deixava o sol entrar em sua vida, ela encontrava novas formas de superar sua solidão. Ela se abriu para amizades verdadeiras, encontrou um propósito maior e descobriu a alegria de compartilhar sua vida com os outros.

E assim, Catarina começou a viver uma vida mais plena e significativa. Ela aprendeu que os segredos e a solidão não eram seus aliados, mas sim obstáculos para sua felicidade. Ao se abrir para o mundo e compartilhar sua vida, ela encontrou a verdadeira riqueza: o amor, a conexão e o poder de fazer a diferença na vida das pessoas ao seu redor.

Conto: “Olhos nos Olhos”

Desde o primeiro encontro, Bárbara e Ricardo mergulharam em uma tórrida paixão. Cada momento juntos era repleto de intensidade e conexão profunda. Suas conversas eram envolventes, suas risadas eram contagiantes e cada toque era eletrizante. Eles se entregaram completamente a essa paixão avassaladora. Os três meses seguintes foram preenchidos por momentos inesquecíveis. Eles exploraram juntos a cidade, desvendando segredos escondidos em cada rua. Viajaram para lugares desconhecidos, compartilharam aventuras e criaram memórias que pareciam durar uma eternidade.

Porém, assim como o amor surgiu de forma intensa, também acabou de forma brusca. Um dia, quando tudo parecia perfeito, Bárbara e Ricardo se encontraram em uma encruzilhada. O que antes era pura paixão, começou a ser obscurecido por diferenças irreconciliáveis. Bárbara, embora apaixonada, carregava consigo um profundo medo de compromisso. Ela tinha sido ferida no passado e, inconscientemente, criou barreiras para evitar se machucar novamente. Por mais que amasse Ricardo, o medo de se entregar totalmente e ser vulnerável começou a afetar o relacionamento.

Ricardo, por sua vez, desejava um amor completo e uma parceria duradoura. Ele ansiava por construir uma vida juntos, compartilhar sonhos e enfrentar desafios lado a lado. No entanto, a relutância de Bárbara em se abrir completamente para ele começou a gerar frustração e desgaste emocional. Os momentos intensos que eles vivenciaram começaram a ser obscurecidos por discussões constantes e desentendimentos. A paixão que antes os unia agora parecia incompatível com as expectativas e necessidades de cada um. Aos poucos, o amor queimante se transformou em cinzas.

No final, Bárbara e Ricardo perceberam que, apesar do amor intenso que sentiam um pelo outro, não poderiam continuar a viver em um relacionamento baseado em inseguranças e obstáculos emocionais. Ambos precisavam encontrar sua própria paz e curar suas feridas antes de poderem se entregar plenamente ao amor. E assim, o amor que arrebatou Bárbara e Ricardo terminou tão bruscamente quanto começou. Eles se separaram, levando consigo as lembranças dos momentos intensos que compartilharam. Mas, em seus corações, eles sabiam que o fim desse amor não significava o fim de sua jornada pessoal em busca da felicidade e do amor verdadeiro.

Bárbara e Ricardo seguiram caminhos separados, cada um em busca de sua própria cura e crescimento pessoal. Eles aprenderam lições valiosas com aqueles três meses intensos, lições que moldariam seus futuros relacionamentos. Embora o amor tenha terminado, a lembrança de seus olhos nos olhos sempre permanecerá como um lembrete de uma paixão avassaladora que uma vez existiu.

Conto: “Um Dia Perfeito”

Marcela, uma jovem de 26 anos, sempre se sentiu como se fosse invisível no emprego e na sociedade. Sendo gordinha, ela carregava o peso não só de seu corpo, mas também da falta de reconhecimento e aceitação por parte dos outros. Na empresa onde trabalhava, os colegas apenas a suportavam, e ela não tinha muitos amigos para contar. Em casa, morava com os pais e mais 3 irmãos, em um ambiente onde não faltava conforto material, mas a conexão emocional e o apoio eram escassos. Os irmãos, imersos nas redes sociais e na busca por likes, pareciam distantes e desconectados da realidade de Marcela. Todas as manhãs, Marcela acordava com um peso no peito, a sensação de não pertencer a lugar nenhum e a solidão como sua companheira constante. No entanto, em uma manhã aparentemente comum, algo mudou. Assim que abriu os olhos, Marcela sentiu uma diferença sutil, uma sensação de leveza e paz interior que ela nunca havia experimentado antes. Era como se algo dentro dela tivesse mudado, não fisicamente, mas espiritualmente.

Ao longo desse dia, Marcela experimentou algo que nunca imaginara ser possível. Pequenos gestos de gentileza e compreensão surgiram em seu caminho, desde um sorriso acolhedor de um colega até uma palavra amiga de um estranho na rua. As situações que antes a incomodavam pareciam perder sua importância, e ela se viu enxergando o mundo com novos olhos. Durante o almoço, um colega que nunca havia prestado muita atenção em Marcela sentou-se ao seu lado e puxou conversa. Surpreendentemente, ele não estava ali por obrigação ou cortesia, mas genuinamente interessado em conhecer mais sobre ela. Aquela simples interação foi o suficiente para aquecer o coração de Marcela e fazê-la sentir-se valorizada.

Ao retornar para casa, Marcela encontrou seus irmãos envolvidos em uma discussão trivial sobre redes sociais. Em vez de se sentir excluída, ela decidiu se juntar a eles e compartilhar suas próprias experiências do dia. Para sua surpresa, os irmãos a ouviram atentamente, demonstrando um interesse genuíno em sua vida e experiências. Ao deitar-se na cama naquela noite, Marcela refletiu sobre o dia que havia tido. Ela percebeu que, mesmo nos momentos mais simples e cotidianos, era possível encontrar beleza e significado. O que tornou aquele dia perfeito não foram circunstâncias extraordinárias ou eventos grandiosos, mas sim a mudança em sua própria percepção e a conexão humana que ela havia experimentado.

Marcela adormeceu com um sorriso nos lábios, sentindo-se grata pela jornada emocional que havia vivido. Na manhã seguinte, ao acordar, ela sabia que o mundo ainda poderia ser um lugar desafiador, mas agora ela carregava consigo a certeza de que, mesmo nos dias mais difíceis, a possibilidade de um dia perfeito sempre estaria ao seu alcance.

Conto: “Apenas Uma Noite”

Carlos e Jane, sem trocar palavras, encontraram-se em um momento de pura química e atração. O toque de seus olhares foi o suficiente para acender a chama da paixão entre eles, levando-os a um beijo ardente e apaixonado que os deixou sem fôlego. Durante o show, eles se procuraram na multidão, mas o destino parecia brincar com eles, mantendo-os separados até o final da apresentação. Foi somente ao saírem do local do show, na porta de saída, que Carlos e Jane se reencontraram. O desejo mútuo e a sensação de conexão instantânea os impulsionaram a passar mais tempo juntos, decidindo embarcar em uma jornada de prazer e intensidade. Sem pensamentos sobre o futuro, sem preocupações com o passado, eles se entregaram um ao outro em uma noite de paixão e entrega total.

O motel foi o cenário onde seus corpos se uniram em uma dança de desejo e prazer, explorando cada centímetro da pele um do outro, perdendo-se nas sensações avassaladoras do momento. Não houve troca de nomes completos, informações pessoais ou contatos. Foi uma experiência desvinculada de qualquer compromisso ou expectativa, uma celebração da liberdade e do prazer fugaz que a vida pode oferecer. No entanto, ao amanhecer, a realidade os alcançou. O sol nascente trouxe consigo a consciência de que aquela noite intensa e apaixonada era apenas um breve instante no tempo, um vislumbre de felicidade que logo se dissiparia. Carlos e Jane se despediram sem promessas de reencontro, sem garantias de um futuro juntos. O que compartilharam foi único, intenso e efêmero, uma memória que os acompanharia para sempre, mas que não poderia ser repetida.

E assim, Carlos e Jane seguiram caminhos diferentes, levando consigo a lembrança daquela noite inesquecível, onde o amor e o desejo se fundiram em uma explosão de emoções. Carlos partiu no seu carro, enquanto Jane ficou aguardando o Uber, colocou seu fone de ouvidos e inesperadamente tocava “Será” da banda Legião Urbana, o que a deixou mais pensativa sobre a noite que tinha passado. O mistério do encontro fugaz e a separação inevitável foram o que os uniram e também o que os afastaram, deixando para trás uma história de paixão e entrega que nunca mais se repetiria.

Contos: Pequenas Histórias de Amor & Ódio

#estanteViva: #2 – O Estranho Mundo de Jack de Tim Burton

#2

O Estranho Mundo de Jack apresenta a clássica e fantástica história criada pelo cineasta Tim Burton que narra as desventuras de Jack Esqueleto, o mestre do Halloween que um dia, entediado em sua Terra das Bruxas e cansado da rotina de sustos e assombrações, depara-se com três grandes portas talhadas em árvores numa floresta. Ao abrir uma delas, cai na Cidade do Natal, onde Papai Noel vive e constrói seus presentes. Deslumbrado, Jack coleta alguns objetos natalinos para provar aos habitantes de seu estranho mundo que ali estivera. De volta a sua mórbida cidade, o esquelético protagonista tem uma ideia um tanto mirabolante: sequestrar o bom velhinho e tomar o seu lugar na entrega dos presentes de Natal. O resultado da empreitada é que, em vez de deixar as crianças alegres, deixa-as, mais uma vez, apavoradas. Até que uma surpresa natalina muda o rumo da história.

Sempre gostei de gibis, mas este livro ilustrado foi o primeiro que li neste formato e, claro, depois muitos outros. Aqui a minha fascinação por Tim Burton cresceu mais ainda, com elementos fantasiosos e sombrios mostra porque o diretor e escritor é um dos melhores do mundo. Bons desenhos e estória legal, fácil de ler e entender. Apesar de eu achar que ele é meio pirado. Ideias loucas de uma mente brilhante? Não sei, mas vale a pena a leitura. 👏

(I) Era uma vez…

não me diga que meus sonhos não são reais.

Uma menina me ensinou, tudo que eu sei, realmente TUDO o que eu sei. Algumas vezes foi sem querer, mas mesmo assim com meus 23 anos descobri que não sabia nada da vida e menos ainda sobre o amor. E Monica, com 19 anos, sonharme mostrou como era a vida real, como
era bom viver intensamente e como, principalmente, era bom amar e sonhar. Me mostrou seus
planos e eu sempre me via ali, ao lado dela: em locais que eu não imaginava conhecer e em aventuras que eu não sonhava viver.

Numa pequena caderneta identificava: locais, horários e aventuras. Numa ordem cronológica minuciosamente escrita com informações até menos irrelevantes, tudo estava anotado ali, numa letra caprichosamente desenhada, afinal, Monica era a dona do seu próprio espaço e tempo. E assim, meus dias foram melhores: mais calorosos no inverno e mais claros mesmo nos dias cinzentos de tempestades.

Quando estávamos em casa e sentados no sofá da sala (um único e velho sofá, muito velho mesmo: de camurça marrom e todo desbotado, que só ficou melhor porque compramos algumas mantas numa das poucas viagens reais à cidade de Paraty e jogamos por cima para disfarçar o quanto aquele sofá era realmente velho), que era o único móvel que cabia no nosso minúsculo apartamento de 22 metros quadrados, com um simples afago na minha cabeça, já me descansava e ela, com toda simplicidade, começava a ler algo que tinha escrito, me fazendo viajar e sonhar.  

O certo é que, cada palavra escrita nos pequenos mas audaciosos relatos me fascinava e eu sempre me perguntava: como eu nunca tinha imaginado isso?
Nada era proibido.

Ninguém poderia me dizer o que eu não fiz?
Ou quem iria me dizer o que eu não podia fazer?
Eu queria viver e estar com Monica todos os dias, todas as horas, todos os segundos.

Mas a vida é cheia de surpresas, nos prega peças de uma hora para outra. Monica viveu intensamente desde os 17 anos, tentou se refugiar em sonhos e ilusões do que poderia e queria fazer nos próximos anos se sua vida fosse normal.
No calor de uma noite de amor e carinhos, do pequeno e bem desenhado nariz de Mônica surge uma gota de sangue, que quando percebo brinco que havíamos chegado no nosso ápice do amor. Rapidamente ela dá um pulo da cama e antes de chegar ao banheiro, cai lentamente no piso frio do nosso quarto. Corro para ampará-la e já não sinto seus batimentos cardíacos, apesar de todo seu corpo estar ainda quente. Me desespero e ligo para a emergência, que rapidamente chega em nossa casa.
Enquanto sigo para o hospital na ambulância, chorando e soluçando sem parar, sinto a mão de Mônica deslizando por entre os meus dedos: o ultimo sopro de vida se esvai.

Abalado abro a pequena caderneta, tentando me agarrar em suas palavras sempre alegres que poderiam me servir de consolo numa hora tão triste, meu mundo ruiu a poucos minutos atrás: eu estava desolado, cansado e perdido.
E na última página uma única frase começava a ser escrita, talvez, para uma última estória que ainda deveria ser desenvolvida e contada.

“Ao Meu Grande e Único Amor, vamos viver, amar e sonhar… “